Copilot e Agentes de IA

Agente de IA para processos internos: não conformidade

Erick Alves de Moura
- Head of Delivery e Arquiteto Principal na Trinapse, Microsoft 365, Power Platform e Copilot
· 10 min de leitura
O agente propõe, a qualidade aprova

Em resumo

  • Na análise de não conformidade, um agente de IA para processos internos compensa quando a reclamação chega em texto livre, o volume forma fila e a classificação exige ler, comparar e decidir.
  • O ganho está em três etapas, que são ler a reclamação, buscar casos parecidos e localizar o trecho do procedimento; a classificação vira apenas uma proposta, e a qualidade aprova antes de ela se tornar oficial.
  • Quando a classificação segue uma regra fixa por campo, ou quando o volume é baixo, um fluxo do Power Automate resolve com menos custo e menos manutenção.
  • Duas armadilhas pedem decisão antes do piloto: os gatilhos de evento podem mudar a forma como a cobrança é calculada, e rodam com as credenciais de quem criou o agente.
  • Ao diretor, leve o custo medido desde o primeiro dia e a aprovação humana como regra, não como opção.

Vale usar um agente de IA para processos internos na análise de não conformidade?

Vale quando a reclamação chega em texto livre, o volume já forma fila e a classificação depende de ler, comparar com o histórico e consultar o procedimento. Nesse caso o agente lê, busca casos parecidos e propõe a classificação, e quem decide continua sendo o analista da qualidade, que aprova ou corrige antes de o registro valer.

A tecnologia já passou da fase de novidade para esse uso: os agentes autônomos estão em disponibilidade geral desde março de 2025, conforme o resumo mensal do Copilot Studio daquele mês, e o plano de lançamento marcava 24 de março de 2025 para os gatilhos de evento, que são o que faz o agente acordar sozinho quando algo acontece. O funcionamento atual, com a lista de eventos aceitos e as condições de uso, está na visão geral dos gatilhos de evento no Microsoft Learn, e vale conferir ali antes de desenhar qualquer piloto, porque a documentação muda mais rápido que um texto como este.

Como a análise de não conformidade costuma rodar hoje

Numa indústria de médio porte, a reclamação de um cliente chega por e-mail ou pelo atendimento, com uma foto do lote e duas linhas de descrição, e alguém a encaminha para a qualidade. O analista abre o registro de não conformidade à mão, copia o texto, escolhe o tipo, a severidade e a área responsável pela memória do que já viu, e só então se pergunta se aquele defeito já apareceu antes.

Essa pergunta quase nunca recebe resposta, e o motivo é prático: responder exige abrir a planilha ou o sistema de registros fechados, ler descrições escritas por pessoas diferentes ao longo de anos e depois achar, num procedimento em PDF, o trecho que se aplica. Com a fila do dia, o analista classifica pelo que reconhece e segue, o que significa que a mesma causa volta a gerar reclamação sem que ninguém ligue um caso ao outro, e que dois analistas podem dar severidades diferentes a problemas quase idênticos.

Onde o agente entra e onde a qualidade aprova

O gatilho de evento é o ponto de partida: quando a reclamação cai na caixa compartilhada da qualidade ou vira um item novo numa lista do SharePoint, o agente é acionado sem que ninguém o chame. Ele lê o texto, extrai o que importa (produto, lote, tipo de defeito, o que o cliente relata) e consulta as fontes de conhecimento configuradas, que no caso são o site do SharePoint onde ficam os registros já fechados e a biblioteca com os procedimentos vigentes, a partir do que o Copilot Studio chama de fontes de conhecimento do agente.

Com isso na mão, o agente monta uma proposta: os casos anteriores que mais se parecem com a reclamação, o trecho do procedimento aplicável, uma sugestão de tipo, severidade e área responsável, e a justificativa de cada escolha com o link para o caso ou para o documento em que se apoiou. A proposta é gravada em campos separados do registro, marcados como sugestão do agente, de modo que nada se torna classificação oficial por conta própria.

A aprovação humana é o que faz o desenho funcionar na qualidade. O analista abre o registro já com os casos parecidos e o procedimento à vista, confirma ou ajusta a classificação, e só a ação dele muda o status para oficial, o que preserva a responsabilidade técnica no lugar onde ela sempre esteve. O agente roda em segundo plano, mas a Microsoft descreve que cada ação dele fica visível na aba Activity, e é essa trilha que permite à qualidade auditar depois o que o agente leu, propôs e entregou.

Quais condições precisam ser verdadeiras para a resposta ser sim

Quatro condições precisam valer ao mesmo tempo. A primeira é que a entrada seja texto livre, escrito por cliente, vendedor ou operador, porque é a leitura de texto sem formato que o agente faz melhor do que uma regra. A segunda é que o volume forme fila de verdade, já que o ganho vem da repetição, e a terceira é que existam casos fechados e procedimentos num lugar que o agente alcance, com a versão vigente identificada, pois um agente que lê três cópias do mesmo procedimento propõe com a mesma confiança a versão errada.

A quarta condição é a mais esquecida: precisa haver um analista com tempo reservado para revisar as propostas, porque um agente que propõe e ninguém aprova só desloca a fila de lugar. Se as quatro valem, o ganho aparece em etapas específicas da análise, e a tabela abaixo separa onde ele poupa trabalho de verdade e onde o fluxo comum ou o próprio analista continuam sendo a melhor escolha.

Etapa da análise

Quem faz melhor

Por quê

Ler a reclamação e resumir o que foi relatado

Agente

O texto vem solto, com formato diferente a cada cliente, e a leitura que hoje consome o início de cada análise passa a chegar pronta.

Buscar casos parecidos

Agente

É a etapa que ninguém faz por falta de tempo, e é onde estão as recorrências que o analista não vê sozinho.

Localizar o trecho do procedimento aplicável

Agente

Evita abrir o PDF e procurar a cláusula, com a ressalva de que a versão vigente precisa estar identificada.

Propor tipo, severidade e área

Agente, com aprovação do analista

Há julgamento envolvido, então o agente sugere com justificativa e a qualidade decide.

Encaminhar para a área quando o tipo já está definido

Fluxo do Power Automate

É regra fixa, e o fluxo faz igual todas as vezes, a um custo menor.

Cobrar prazo, escalar atraso e avisar o responsável

Fluxo do Power Automate

Também é regra e calendário, sem leitura nem comparação.

Verificar a eficácia da ação corretiva e fechar

Analista da qualidade

Exige ir à linha, olhar o resultado e assumir a decisão por escrito.

O mesmo raciocínio aparece no próprio blog da Microsoft, que descreve os fluxos de agente como a escolha para processos que pedem consistência e controle, como rotear tarefas ou aplicar regras, justamente porque não precisam do esforço de raciocínio de um agente. A árvore abaixo resume o caminho de decisão que a gente percorre com a área antes de propor qualquer coisa.

Árvore de decisão: regra fixa leva ao fluxo; volume baixo ao manual; base desorganizada à organização; senão, agente.

A terceira pergunta é a que mais derruba piloto: sem casos fechados e procedimento vigente num lugar só, o agente propõe com base num histórico em que ninguém confia.

Armadilhas que aparecem antes do piloto

Ligar o gatilho sem olhar a cobrança

Ativar gatilhos de evento pode mudar a forma como a cobrança do agente é calculada, e o erro mais comum é descobrir isso na fatura, depois de um piloto que parecia barato. A página de cobrança e gerenciamento de consumo do Copilot Studio descreve como o consumo é medido, e o texto da Trinapse sobre Copilot Credits: como controlar o custo dos agentes de IA mostra como estimar e acompanhar esse gasto antes de ligar. Numa fábrica com reclamações todos os dias, um gatilho que dispara a cada e-mail da caixa compartilhada, inclusive os que não são reclamação, consome sem produzir nada, e por isso o primeiro filtro precisa ficar no próprio evento.

Deixar o agente preso à credencial de uma pessoa

Segundo a documentação dos gatilhos de evento, eles só usam as credenciais do autor do agente, o que significa que o agente lê a caixa e grava no registro com as permissões de uma pessoa específica. Quando essa pessoa muda de área, perde acesso ou sai da empresa, o agente para de funcionar, ou pior, passa a trabalhar com um acesso que ninguém decidiu manter. Por isso a TI precisa discutir desde o início quem será o autor, como a propriedade do agente será transferida e se faz sentido uma conta dedicada, em vez de descobrir isso numa segunda-feira em que a fila de reclamações amanheceu parada.

Transformar a aprovação em carimbo

O desenho só protege a qualidade se a aprovação exigir leitura, e um analista pressionado pela fila tende a aprovar tudo quando a proposta vem bem escrita. A proposta deve sempre mostrar os casos e o trecho do procedimento em que se apoiou, e a qualidade deve acompanhar com que frequência corrige o agente, porque uma taxa de ajuste que cai a zero de repente costuma indicar revisão feita no automático, não um agente perfeito.

Quando não usar um agente

Não use quando a classificação segue uma regra fixa por campo: se o tipo de não conformidade sai do código do defeito, da linha de produção ou do cliente, um fluxo do Power Automate resolve mais barato e roda igual todas as vezes, e pagar por raciocínio que ninguém usa só encarece o processo. Também não use quando o volume é baixo, porque algumas reclamações por semana o analista lê e classifica em minutos, e o trabalho de montar, testar e sustentar o agente supera o que ele devolveria.

Há um terceiro caso, que vem do que a gente vê em cliente: quando os registros fechados estão espalhados em planilhas pessoais e os procedimentos existem em várias versões, o agente propõe com base num histórico que não é confiável. Nessa situação, o primeiro projeto é organizar a base, com procedimento vigente identificado e registros num único lugar, e só depois faz sentido pensar em agente.

Quem cria um agente de IA para processos internos?

A área dona do processo desenha e valida o agente, e a TI sustenta o ambiente em que ele roda. Do lado da qualidade, isso exige definir o que o agente pode propor, quais fontes ele consulta, qual é o critério de uma boa classificação e quem revisa as propostas; do lado da TI, exige decidir quem é o autor do agente e como a propriedade se transfere, aplicar as políticas de dados do ambiente, acompanhar o consumo e manter as fontes de conhecimento atualizadas.

Os dois textos da Trinapse sobre Agentes de Processo no Copilot Studio e sobre o Agente de E-mail no Copilot Studio cobrem a parte técnica de cada tipo de agente, e este post mostra como uma área, a qualidade, escolhe entre eles e o fluxo comum. Quando o dono do processo chega à TI com o critério pronto e a aprovação humana desenhada, a conversa deixa de ser sobre permitir ou não a ferramenta e passa a ser sobre como sustentá-la.

O que levar para quem aprova

Um piloto na triagem de reclamações da fábrica, com o analista de qualidade aprovando toda classificação antes de ela valer, deve encurtar o tempo entre a chegada da reclamação e a abertura do registro e trazer à tona as recorrências que hoje passam despercebidas, com o consumo de Copilot Credits medido desde o primeiro dia. Sem essa decisão, a busca por casos parecidos continua não sendo feita, a mesma causa continua gerando reclamação e a classificação segue variando de um analista para outro. O próximo passo é aprovar um piloto curto com um responsável da qualidade que revisa as propostas e um responsável de TI que cuida do ambiente, da conta que roda o agente e do custo, com o combinado de encerrar se o consumo ou a taxa de correções não justificarem a continuidade.

Se for útil, a Trinapse monta com a sua área o resumo dessa decisão e o critério de comparação entre agente e fluxo, já no formato para apresentar ao diretor.

Erick Alves de Moura
Head of Delivery e Arquiteto Principal na Trinapse, Microsoft 365, Power Platform e Copilot

Erick Alves de Moura é Head of Delivery e Arquiteto Principal da Trinapse, consultoria brasileira especializada em Microsoft 365. Acumula 14 anos de experiência em arquitetura e entrega de soluções sobre SharePoint, Power Platform, Microsoft Graph e Copilot, sempre em ambientes corporativos de grande porte.

Ver maisVer menos

Ao longo da carreira, conduziu migrações de SharePoint on-premises para o SharePoint Online, desenhou intranets corporativas, automatizou processos de negócio com Power Apps e Power Automate e, mais recentemente, projetou agentes de IA integrados ao Microsoft 365.

São projetos com milhares de usuários, regras de governança rígidas e integração com sistemas legados, o tipo de cenário em que a decisão de arquitetura importa mais do que a ferramenta.

Fluente em inglês, atende clientes globais e é o arquiteto responsável pela conta da Bayer nos Estados Unidos, no Brasil, atua junto a cooperativas de crédito, agronegócio e indústria, setores com forte exigência de conformidade e continuidade operacional.

Escreve no blog da Trinapse desde 2019. São mais de 240 artigos publicados sobre SharePoint, Modern Workplace, Copilot e agentes de IA, Power Platform e automação de processos, em dois formatos: tutoriais técnicos passo a passo e análises de decisão sobre arquitetura e adoção do Microsoft 365. Todo conteúdo nasce de projeto real entregue, não de documentação traduzida.

LinkedIn
Compartilhar:

Precisa aplicar isso na sua empresa? Fale com nossos especialistas.

Falar com um especialista