O que vale automatizar: pontue cada etapa e decida o destino

Este post continua o post de mapeamento do processo publicado no início da semana, e parte do ponto onde ele terminou: você tem o mapa com todas as etapas desenhadas e ainda não sabe qual delas merece automação primeiro. O exemplo é a área fiscal de uma trading de grãos, que confere as notas de entrada de soja e milho junto com a gestão de contratos.
Em resumo
- Cada etapa do mapa recebe uma pontuação de zero a dez, somando volume mensal, clareza da regra, frequência de exceção e qualidade do dado de entrada, numa planilha de Excel comum.
- A soma define a ordem de prioridade, e três condições definem o destino: regra clara com dado estruturado vai para fluxo automático, texto livre ou documento sem padrão pede agente de IA, e julgamento ou etapa rara continua com pessoas.
- A armadilha mais comum é começar pela exceção que mais dói, quando quem paga o projeto é o caminho feliz de alto volume.
- Não use a planilha com processo que ainda não foi mapeado nem com etapa que roda poucas vezes por mês, porque a pontuação só faz sentido sobre etapas reais e medidas.
- A escolha entre Power Automate, Power Apps e agente, dentro de cada destino, fica para o próximo post da trilha.
O que vale automatizar em um processo que já está mapeado?
Vale automatizar a etapa que roda muitas vezes por mês, segue uma regra que dá para escrever e raramente foge dela, e você descobre quais são essas etapas pontuando cada linha do mapa por volume, regra, exceção e dado de entrada. A soma dá a ordem de prioridade, e três condições simples dizem se a etapa vai para fluxo automático, para um agente de IA ou continua com pessoas.
A documentação da Microsoft sobre desenho de processos para automação no Power Automate coloca isso como o primeiro passo do planejamento: decidir quando e o que automatizar, identificando qual parte do processo atual será automatizada. Os ganhos que ela lista são regra de negócio padronizada, menos trabalho repetitivo, menos erro humano e aprovações mais ágeis, e cada um deles vira um critério que você consegue pontuar. Padronização pede regra clara, trabalho repetitivo pede volume, erro humano concentra-se onde o dado entra mal, e a aprovação ágil só acontece quando a exceção é pequena o bastante para não travar a fila.
Na trading do nosso caso, a área fiscal confere todas as notas de entrada que chegam de produtores, cooperativas e armazéns, comparando cada uma com o contrato de compra que a gestão registrou e com o ticket de pesagem do recebimento. O processo está mapeado, tem onze etapas, e o coordenador fiscal ouve de todo lado que "a conferência de nota precisa de IA". Sem pontuar, ele não consegue dizer ao diretor qual etapa vem primeiro nem por quê, e é essa justificativa que a planilha entrega.
Pré-requisitos para pontuar as etapas
A pontuação não exige licença de Power Automate nem permissão especial no tenant, porque roda numa planilha de Excel, no aplicativo ou no navegador, então a área fiscal pode começar sem pedir nada à TI. O que ela exige é matéria-prima, ou seja, o mapeamento das etapas e a conversa com quem executa cada uma, e a falta dessa base é o motivo mais comum de a conta não fechar.
- O mapa do processo com as etapas nomeadas como a área as chama, saído do post anterior da série.
- O volume mensal de cada etapa, tirado de um relatório do ERP, da caixa de entrada ou do controle de notas, e não da memória de quem opera.
- Uma pessoa da operação que conheça as exceções de cada etapa, e outra da gestão que saiba por que a regra existe.
- Uma conversa com os dois na mesma sala, porque a nota de regra e a nota de exceção costumam divergir entre quem faz e quem acompanha.
As ferramentas de destino só entram depois da pontuação, porque escolher onde construir antes de saber o que vale construir inverte a ordem da decisão. Quando chegar a hora, o Power Automate cuida dos fluxos e o Copilot Studio é a ferramenta da Microsoft para criar agentes, mas escolher entre elas é assunto do próximo post.
Quando não usar esta pontuação
Se o processo ainda não foi mapeado, volte ao mapeamento primeiro, porque pontuar etapas que ninguém desenhou produz uma lista que depende de quem estava na sala. Se a etapa roda poucas vezes por mês, a pontuação de volume derruba o total e a etapa fica com pessoas, o que costuma ser a decisão certa: o esforço de construir e sustentar um fluxo para algo que acontece duas vezes por mês quase nunca se paga.
Passo a passo: pontuar cada etapa na planilha
A escala que a planilha usa
Antes de preencher, fixe a escala, porque ela evita que cada pessoa invente a própria régua e que o total de uma etapa não possa ser comparado com o de outra. As faixas de volume abaixo são um ponto de partida, e você deve ajustá-las ao tamanho da sua operação, desde que mantenha as mesmas faixas para todas as etapas.
Critério | Pergunta que o dono responde | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|---|---|---|---|---|
Volume | Quantas vezes a etapa roda por mês? | Menos de 30 | 30 a 200 | 200 a 1.000 | Mais de 1.000 |
Regra | Dois colegas aplicando a regra chegam ao mesmo resultado? | Depende de julgamento | Há ressalvas que só o veterano conhece | Regra escrita e testável | – |
Exceção | Em quantas execuções a etapa foge do caminho normal? | Mais da metade | De 1 em 5 até 1 em 2 | De 1 em 20 até 1 em 5 | Menos de 1 em 20 |
Dado de entrada | O dado que a etapa recebe vem em campos? | Texto livre ou documento sem padrão | Parte em campos, parte em texto | Campos estruturados | – |
A exceção pontua ao contrário do que a intuição pede: quanto mais rara, maior a nota, porque o que se compra com automação é previsibilidade, e a etapa cheia de desvios tira dela justamente isso. O total máximo por etapa é dez.
- Liste as etapas do mapa. No Excel, abra uma pasta nova, vá em Inserir > Tabela e crie sete colunas: Etapa, Volume, Regra, Exceção, Dado, Total e Destino. Uma linha por etapa, com o nome que a área usa, e não o nome do sistema, porque quem vai discutir a nota é quem opera. Na trading, a lista começa em "Receber o XML da nota de entrada" e termina em "Tratar divergência de classificação do grão".
- Anote o volume mensal. Preencha a coluna Volume com a nota da faixa, depois de consultar o relatório do mês. Use a média de três meses se houver safra no meio, porque a nota de volume num pico de recebimento engana, e o fiscal de uma trading sabe bem a diferença entre abril e setembro.
- Classifique se a regra é clara. Pergunte ao operador qual é a regra e peça a um colega para aplicá-la sem ajuda. Se os dois chegam a respostas diferentes, a nota é zero ou um, e isso importa mais do que parece: regra que só existe na cabeça de uma pessoa não vira fluxo, vira risco com cara de automação.
- Conte a frequência de exceção. Pegue uma amostra de execuções recentes, conte quantas fugiram do caminho normal e dê a nota pela faixa. O erro típico é pontuar pela exceção que o time lembra, que é sempre a mais dramática, e não pela que o relatório mostra.
- Verifique se o dado de entrada é estruturado. Olhe o que a etapa recebe: o XML da nota e o campo de quantidade do contrato são estruturados, o ticket de pesagem escaneado e o e-mail da cooperativa explicando uma diferença não são. Documento que muda de layout a cada fornecedor conta como zero, mesmo que seja "sempre um PDF".
- Some a pontuação. Na coluna Total, use a fórmula de soma do bloco de código abaixo, que reúne volume, regra, exceção e dado. Depois ordene a tabela do maior para o menor total, em Dados > Classificar, e a ordem de prioridade aparece sozinha.
- Decida o destino de cada etapa. A coluna Destino aplica as condições em ordem, e a ordem importa porque a primeira que for verdadeira decide. Volume zero manda a etapa para pessoas, não importa o resto, porque rara demais não se paga. Regra zero também manda para pessoas, porque julgamento não se transfere para fluxo nem para agente sem criar um problema novo. Regra clara, dado estruturado e total de sete ou mais vai para fluxo automático, e dado em texto livre ou documento sem padrão, com volume a partir da faixa dois, pede agente. O que sobra vai para revisão com a área, e não para uma decisão no escuro.

A armadilha está no passo 4: pontue a exceção pela amostra do relatório, não pela que o time lembra.
As fórmulas de soma e destino
As fórmulas abaixo estão com os nomes de função do Excel em português e ponto e vírgula como separador, que é o padrão de uma instalação brasileira, então devem funcionar sem ajuste na maioria das máquinas. Cole a primeira na célula F2 (Total) e a segunda na G2 (Destino), e arraste para as demais linhas.
' Total da etapa (F2): soma volume, regra, exceção e dado
=SOMA(B2:E2)
' Destino da etapa (G2): as condições são testadas em ordem
=SE(B2=0;"Pessoas";
SE(C2=0;"Pessoas";
SE(E(C2=2;E2=2;F2>=7);"Fluxo";
SE(E(E2=0;B2>=2);"Agente";"Revisar"))))A fórmula lê assim: volume zero e regra zero encerram a conversa e devolvem "Pessoas", o trio regra clara, dado estruturado e total de sete ou mais devolve "Fluxo", dado em texto livre com volume relevante devolve "Agente", e todo o resto cai em "Revisar". Esse último caso aparece, por exemplo, quando a regra é clara mas o dado vem misto, e a saída costuma ser padronizar a entrada na origem, pedindo o XML ao fornecedor em vez de ler o PDF. Se o seu Excel estiver em inglês, troque SOMA por SUM, SE por IF, E por AND e o ponto e vírgula por vírgula.
Como ficou no caso da trading de grãos
A tabela abaixo mostra sete das onze etapas da área fiscal, com valores de um caso composto que serve de modelo para o seu preenchimento, e por isso ela tem a mesma estrutura da que você vai montar. Ela pode ser copiada para o Excel de uma vez, o que poupa a digitação e deixa você ajustar só os valores.
Etapa | Volume | Regra | Exceção | Dado | Total | Destino |
|---|---|---|---|---|---|---|
Receber o XML da nota de entrada e registrar no controle | 3 | 2 | 3 | 2 | 10 | Fluxo |
Conferir quantidade e preço da nota contra o contrato de compra | 3 | 2 | 2 | 2 | 9 | Fluxo |
Rotear para aprovação a nota acima da alçada | 2 | 2 | 3 | 2 | 9 | Fluxo |
Ler o ticket de pesagem escaneado e cruzar com a nota | 3 | 1 | 2 | 0 | 6 | Agente |
Interpretar o e-mail da cooperativa que explica uma divergência | 2 | 1 | 1 | 0 | 4 | Agente |
Tratar divergência de classificação do grão, com negociação | 1 | 0 | 0 | 1 | 2 | Pessoas |
Lançar ajuste de nota complementar, caso raro | 0 | 2 | 2 | 2 | 6 | Pessoas |
A última linha mostra a condição de volume agindo: o total de seis seria suficiente para despertar interesse, mas a etapa roda tão poucas vezes por mês que a fórmula devolve "Pessoas" antes de olhar o resto. A quinta linha, por outro lado, mostra o que a leitura intuitiva erra, porque o e-mail parece "coisa de IA" e de fato é, só que o total quatro diz que não é a primeira prioridade.
A armadilha: começar pela exceção que mais dói
A divergência de classificação do grão, com desconto negociado entre fiscal e gestão do contrato, consome a tarde de duas pessoas e é a etapa que o coordenador mais cita quando pede automação. É natural começar por ela, porque é a que gera reclamação, só que a pontuação a coloca no fim da lista: o volume é baixo, a regra é julgamento e a exceção é praticamente a regra. Automatizar essa etapa primeiro significa construir algo caro, difícil de testar e que atinge poucas notas por mês.
Quem paga o projeto é o caminho feliz de alto volume, a conferência de quantidade e preço contra o contrato, que roda milhares de vezes por mês e consome algumas horas por semana de cada conferente, sem que ninguém reclame porque é tarefa de rotina. Quando o fluxo assume essa etapa, a exceção que dói ainda existe, mas chega à mesa do fiscal já isolada, com o contrato e o ticket anexados, e aí sim vale conversar sobre ajudar o julgamento.
Como validar que a pontuação funciona
Peça a duas pessoas da área para pontuarem as mesmas etapas, cada uma por conta própria, e compare as colunas. Uma diferença de dois pontos ou mais num critério quase sempre indica uma regra que não está clara, e isso é um resultado útil por si só, porque a etapa vai para revisão antes de virar projeto.
Depois, leia a tabela ordenada em voz alta para o time. No topo devem aparecer as etapas de alto volume, com dado estruturado e pouca exceção, as que ninguém comenta no corredor porque funcionam no automático, e na parte de baixo as que dão trabalho e rendem pouco. Se a etapa mais dolorosa estiver em primeiro lugar, volte aos critérios de exceção e de regra, porque provavelmente a dor contaminou a nota.
Por fim, confira se cada destino tem coerência com o que a coluna Dado diz: "Fluxo" com dado zero ou "Agente" com dado estruturado indica fórmula alterada ou nota errada. Na tela, o resultado esperado é uma coluna Destino com os três valores distribuídos, e a maior parte das etapas de maior total marcadas como "Fluxo".
Erros comuns ao pontuar
- A célula mostra
#NOME?. O Excel não reconheceu a função, porque a fórmula foi colada com nomes em inglês numa instalação em português, ou o contrário. Troque SUM, IF e AND por SOMA, SE e E, ou o inverso. - A célula mostra
#VALOR!. Alguém escreveu "alto" ou "médio" numa coluna de pontuação, e a soma não consegue somar texto. As quatro colunas de critério só aceitam o número da escala. - Todas as etapas caem em "Revisar". Isso acontece quando o dado fica quase sempre na nota um, porque a equipe avaliou "parte em campo, parte em texto" para tudo. Reveja a coluna Dado e use um exemplo real de cada etapa como critério de desempate.
- As notas mudam de uma conversa para outra. A régua foi fixada na cabeça de cada um e não na escala escrita. Imprima a tabela de critérios e use-a como referência única na reunião.
- O volume saiu da memória. A nota de volume parece razoável e está errada em uma faixa inteira, o que desloca o destino. Volte ao relatório do sistema e refaça só essa coluna.
- A etapa ficou grande demais. "Conferir a nota" junta XML, contrato, pesagem e exceção numa linha só, e a pontuação média esconde o que cada parte exige. Quebre em etapas menores, cada uma com uma regra e um tipo de dado.
O que levar para quem aprova
Depois de pronta, a planilha entrega ao diretor uma lista ordenada das etapas do processo fiscal, com o destino de cada uma justificado por volume, regra, exceção e dado, e a decisão de começar pelo caminho feliz de alto volume passa a ter critério escrito em vez de opinião. O custo da pontuação em si é só o esforço da conversa entre fiscal e gestão, sem licença nova, e o custo de licença e de sustentação aparece quando o primeiro fluxo ou agente for escolhido, o que será detalhado no próximo post da trilha. O risco fica sob controle porque o que exige julgamento continua com pessoas, o piloto começa pelas etapas do topo da lista, e a pontuação é refeita a cada trimestre, quando o volume e as exceções mudam.
Se a lista já está pronta e a pergunta agora é quem sustenta o fluxo e o agente depois que entram em produção, a Trinapse tem o modelo de operação que usamos em outras áreas, e pode montar o critério de acompanhamento junto com a sua equipe, a partir dessa mesma planilha.
Erick Alves de Moura é Head of Delivery e Arquiteto Principal da Trinapse, consultoria brasileira especializada em Microsoft 365. Acumula 14 anos de experiência em arquitetura e entrega de soluções sobre SharePoint, Power Platform, Microsoft Graph e Copilot, sempre em ambientes corporativos de grande porte.
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Ao longo da carreira, conduziu migrações de SharePoint on-premises para o SharePoint Online, desenhou intranets corporativas, automatizou processos de negócio com Power Apps e Power Automate e, mais recentemente, projetou agentes de IA integrados ao Microsoft 365.
São projetos com milhares de usuários, regras de governança rígidas e integração com sistemas legados, o tipo de cenário em que a decisão de arquitetura importa mais do que a ferramenta.
Fluente em inglês, atende clientes globais e é o arquiteto responsável pela conta da Bayer nos Estados Unidos, no Brasil, atua junto a cooperativas de crédito, agronegócio e indústria, setores com forte exigência de conformidade e continuidade operacional.
Escreve no blog da Trinapse desde 2019. São mais de 240 artigos publicados sobre SharePoint, Modern Workplace, Copilot e agentes de IA, Power Platform e automação de processos, em dois formatos: tutoriais técnicos passo a passo e análises de decisão sobre arquitetura e adoção do Microsoft 365. Todo conteúdo nasce de projeto real entregue, não de documentação traduzida.



